CAFÉ COM CUSCUZ: SABOR NORDESTINO, MEMÓRIAS AFETIVAS E UMA HISTÓRIA DE RAIZ EM BERTIOGA
ENTRE O CHEIRO DO CAFÉ PASSADO NA HORA E O CUSCUZ QUENTINHO, O RESTAURANTE CONQUISTA CLIENTES COM CULINÁRIA BRASILEIRÍSSIMA, ACOLHIMENTO E UMA TRAJETÓRIA DE SUPERAÇÃO

Há lugares que alimentam o corpo. Outros alimentam também a memória, o afeto e o sentimento de pertencimento. Em Bertioga, o Café com Cuscuz nasceu exatamente dessa proposta: oferecer comida de conforto, resgatar lembranças e valorizar uma das culinárias mais ricas e afetivas do Brasil — a nordestina.
À frente do empreendimento estão Maria Tereza Francisco Sales e o esposo Diego, casal que transformou um sonho antigo em um restaurante que vem conquistando espaço e o paladar dos bertioguenses.
O Café com Cuscuz começou de forma mais intimista, em um pequeno espaço na Rua da Prefeitura, próximo ao Salão Brasil Beleza. A primeira unidade, inaugurada há cerca de um ano e meio, surgiu como cafeteria especializada em cuscuz nordestino recheado, sem almoço, mas com uma proposta muito clara: proporcionar experiências afetivas através da gastronomia.
“Foi pensado para trazer comida de conforto para as pessoas e memórias afetivas”, resume Tereza.

Hoje, o restaurante vive uma nova fase em um espaço mais amplo, localizado na Rua Antônio Rodrigues de Almeida, 595, no Centro de Bertioga, onde funciona há cerca de três meses. O ambiente ganhou estrutura de restaurante regional, preparado para receber famílias, amigos e clientes que buscam desde um café da manhã caprichado até um happy hour descontraído.
Logo nas primeiras horas da manhã, o aroma do café fresco já toma conta do salão. A casa oferece café da manhã self-service à vontade, servido das 7h30 às 10h30, com variedade digna de hotel: bolos, pães, cappuccino, chocolate quente, sucos naturais e, claro, o grande protagonista da casa: o cuscuz nordestino.

E é justamente nele que mora um dos maiores orgulhos da proprietária.
“Sem modéstia nenhuma, é o melhor cuscuz dessa cidade”, afirma Tereza, entre risos.
O carro-chefe da casa é o “Cuscuz Nordestino Supremo”, recheado com carne seca e queijo coalho. Outro destaque é o “Queijo Crocante”, preparado com três queijos e crispy de bacon. Também fazem sucesso as versões de frango com catupiry, calabresa com catupiry e o clássico cuscuz com manteiga de garrafa e ovo frito — combinação simples, mas carregada de identidade cultural.
A força simbólica do prato ganhou notoriedade nacional nos últimos anos, especialmente após a paraibana Juliette Freire defender emocionadamente, durante sua participação no reality show “Big Brother Brasil”, a importância cultural e afetiva do cuscuz para o povo nordestino. A cena acabou se transformando em um dos momentos mais marcantes daquela edição e ajudou a reforçar ainda mais o valor emocional desse alimento tão tradicional.
No almoço, o restaurante mergulha de vez na culinária regional brasileira. Rabada e baião de dois estão presentes diariamente no cardápio, além de pratos que variam conforme o dia da semana, como vaca atolada, feijoada, frango com quiabo e moqueca nordestina com camarão aos sábados.
Ao mesmo tempo, a casa também atende quem aprecia opções mais tradicionais, como bife acebolado, filé de frango e frango à parmegiana.
Outro diferencial são os sabores típicos que remetem diretamente às raízes nordestinas: doces em compota, banana chips, cachaças curtidas na fruta e na rapadura, além das tradicionais tapiocas recheadas.
Mais do que um restaurante, o Café com Cuscuz carrega uma história de luta, coragem e pertencimento profundamente ligada a Bertioga.

Embora nunca tenha visitado o Nordeste, Tereza cresceu cercada pela cultura nordestina dentro de casa. Filha de pai pernambucano e mãe paranaense, herdou o sotaque, os costumes e a paixão pela culinária através das tias, que considera grandes referências na cozinha.
A ideia do restaurante permaneceu amadurecendo em sua mente por mais de dois anos, enquanto trabalhava em hotelaria. Somente após deixar o emprego, depois de quase 15 anos atuando em um resort na Riviera, conseguiu finalmente dedicar-se integralmente ao sonho do próprio negócio.
Mas sua ligação com Bertioga começou muito antes disso.
Tereza chegou à cidade em 1991, justamente no ano da emancipação do município. A viagem até aqui já parecia anunciar a trajetória de superação que viria pela frente.
“Descemos a serra a pé e depois conseguimos carona com um caminhoneiro. Eu vim na boleia do caminhão e minha mãe com minhas irmãs na carroceria”, relembra.
A promessa de trabalho que trouxe a família para Bertioga acabou não se concretizando. Ainda assim, eles permaneceram por um período no bairro Sítio São João. Tempos depois, quando a mãe decidiu retornar para São Paulo, Tereza ficou na cidade e passou a morar com uma família bastante conhecida pelos antigos moradores.
Foi acolhida por Dona Maria de Lourdes, esposa do popular Diabo Loiro, figura lembrada com carinho por moradores mais antigos da cidade e ligada à tradicional família do Mestre Zuza.
A partir dali, sua vida começou a mudar.

Foi incentivada a estudar, retomou os estudos já adolescente na Escola do Jardim Paulista e, anos depois, formou-se em Pedagogia pela Universidade Santa Cecília, integrando a primeira turma do curso. Também atuou como professora antes de seguir carreira na hotelaria.
Hoje, além do restaurante, Tereza e Diego administram lavanderias voltadas ao atendimento de hotéis e pousadas da cidade, consolidando uma trajetória construída com trabalho e perseverança.
No Café com Cuscuz, cada detalhe parece carregar um pouco dessa caminhada. O atendimento acolhedor, os sabores marcantes, o ambiente familiar e o orgulho das raízes fazem do espaço muito mais do que um ponto gastronômico.
É um retrato da mistura cultural brasileira. Um lugar onde o Nordeste encontra Bertioga à mesa — entre histórias, aromas e sabores que aquecem o coração.