VOCÊ SABE QUEM FOI HANS STADEN? REPORTAGEM NAS RUAS DE BERTIOGA REVELA DESCONHECIMENTO SOBRE PERSONAGEM HISTÓRICO

ENTRE MORADORES E TURISTAS, MAIORIA NUNCA OUVIU FALAR DO AVENTUREIRO ALEMÃO QUE VIVEU NO FORTE SÃO JOÃO

Jessé Oliveira e Alice Cabral, ao lado da pequena Alícia, aproveitam um momento em família no Parque dos Tupiniquins — cenário onde a história e o cotidiano se encontram. Moradores de Bertioga, o casal contou que conhecia o nome de Hans Staden apenas por referências locais, como a antiga clínica da cidade. Alice revelou que chegou a imaginar que ele fosse português. Após conhecerem a verdadeira trajetória do aventureiro alemão, disseram que pretendem pesquisar mais sobre sua história — um gesto que mostra como o passado ainda pode ser redescoberto, inclusive por quem vive tão perto dele todos os dias. 

Por Jornal Edição Extra

Em um cenário onde a história pulsa silenciosa entre muralhas centenárias, uma pergunta simples revelou uma realidade surpreendente: quem foi Hans Staden?

A equipe do Jornal Edição Extra esteve no Parque dos Tupiniquins, onde está localizado o Forte São João — a primeira fortaleza erguida no Brasil — para ouvir moradores e turistas. O resultado chama a atenção: a grande maioria das pessoas desconhece completamente a história do aventureiro alemão que viveu ali no século XVI.

ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE

Morador da capital paulista, Andrew Wellington visitava o parque e resumiu um sentimento comum entre os entrevistados:

“Na escola, conheci as aventuras de Robinson Crusoé, mas nunca havia ouvido falar sobre Hans Staden.”

A comparação é inevitável. Enquanto o personagem fictício atravessou gerações, o homem real que viveu experiências ainda mais intensas em terras brasileiras permanece fora do imaginário popular.

Gabriele Escobar, ao lado da pequena Helena e da amiga Amanda, aproveitam a tranquila tarde de domingo (12) em um banco do Parque dos Tupiniquins. Durante o passeio, Gabriele contou que já havia ouvido o nome de Hans Staden por meio de uma instituição de ensino, mas não conhecia sua história. Amanda, por sua vez, disse já ter escutado o nome em algum momento, mas sem saber quem foi o personagem. Após conhecerem o relato do aventureiro alemão, ambas destacaram a importância de valorizar figuras históricas ligadas à própria cidade. 

UM NOME CONHECIDO… MAS SEM HISTÓRIA

Entre os moradores de Bertioga, o cenário não foi muito diferente.

Leônidas Alves, que vive na cidade há quase 20 anos, passeava com os filhos Leonardo e Maria Eduarda quando foi abordado pela reportagem. Ele reconheceu o nome — mas não a história:

“Conheço a Clínica Hans Staden, mas não sabia quem ele era.”

A mesma situação se repetiu com Taysa, que morou na cidade até 2022, e com sua amiga Cibele, de Guarulhos. Ambas afirmaram já ter ouvido o nome, mas apenas por conta da clínica.

O casal Henrique Santos e Tiane Lima dos Santos, moradores há três décadas em Bertioga, também não conheciam a trajetória do aventureiro. Tiane chegou a comentar que viu recentemente uma matéria nas redes sociais, mas não leu até o final.

Após ouvirem o relato da reportagem, os dois garantiram: agora vão pesquisar.

Paulo Roberto e dona Aparecida, moradores de Santos, durante visita ao Forte São João, no coração do Parque dos Tupiniquins. Enquanto dona Aparecida lia atentamente as informações expostas no local, seu Paulo compartilhou com a reportagem que já conhecia a história de Hans Staden — conhecimento adquirido ao acompanhar, anos atrás, um levantamento arqueológico na região da Ermida de Santo Antônio do Guaibê. Agrimensor há mais de cinco décadas, ele se orgulha de ter contribuído com estudos ligados a um dos cenários históricos associados à trajetória do aventureiro alemão. Um encontro raro entre memória vivida e história preservada. 

DESCOBERTAS QUE ACONTECEM ALI, NA HORA

Para alguns visitantes, o encontro com a história aconteceu ali mesmo, durante o passeio.

Foi o caso do casal Guilherme Henrique e Thais Semíramis, de São Paulo, que visitavam Bertioga pela primeira vez:

“Tinha uma placa contando a história dele. Lemos ali e conhecemos hoje. Antes, nunca havíamos ouvido falar.”

Já Gabriele Escobar, enfermeira, disse conhecer o nome por meio de uma instituição de ensino, mas não sabia quem foi Hans Staden. Sua amiga Amanda completou:

“Já tinha ouvido falar, mas não sabia quem era. Agora que conheci a história, acho que ele deveria ser conhecido por todos, principalmente aqui.”

Leônidas Alves, ao lado dos filhos Leonardo e Maria Eduarda, durante passeio em família no Parque dos Tupiniquins. Morador de Bertioga há quase duas décadas, ele contou à reportagem que conhecia o nome de Hans Staden apenas por referências locais, como a antiga clínica da cidade — sem saber quem foi o personagem. Após ouvir um resumo da trajetória do aventureiro alemão, que viveu parte de sua história no Forte São João, Leônidas se surpreendeu. Um retrato de como a história pode estar presente no dia a dia — e, ainda assim, aguardar para ser descoberta pelas novas gerações. 

QUANDO A HISTÓRIA ENCONTRA QUEM A CONHECE

Entre tantos relatos de desconhecimento, uma exceção chamou a atenção.

Dentro do Forte, o senhor Paulo Roberto, morador de Santos, demonstrou familiaridade com a história de Staden. Agrimensor há mais de cinco décadas, ele contou que teve contato com pesquisas arqueológicas na região da Ermida de Santo Antônio do Guaibê, área ligada ao episódio da captura do aventureiro pelos tupinambás.

“Tenho orgulho de ter participado desse levantamento”, disse.

Enquanto isso, sua esposa, dona Aparecida, lia atentamente as informações expostas no local — uma cena simbólica: a história está ali, disponível, mas ainda precisa ser descoberta por muitos.

Elder Martins e Claudia Pedroso, recém-chegados a Bertioga, durante passeio pelo Parque dos Tupiniquins. Morando na cidade há cerca de um ano, o casal contou que ainda não conhecia a história de Hans Staden. Após ouvir da reportagem um resumo das aventuras do alemão — que viveu, lutou e escreveu sobre essas terras no século XVI — ficaram encantados e decidiram entrar no Forte São João para saber mais. Um encontro espontâneo com a história que transforma curiosidade em descoberta.

ENTRE O NOME E O SIGNIFICADO

Outro ponto curioso observado nas entrevistas é a associação superficial com o nome.

Jessé Oliveira, morador há 20 anos, e sua esposa Alice Cabral conheciam “Hans Staden” apenas pela clínica da cidade. Alice acreditava, inclusive, que ele fosse português.

Após conhecerem a história, o casal afirmou que pretende se aprofundar mais — motivados pelo amor que têm por Bertioga.

Henrique Santos e Tiane Lima dos Santos, moradores de Bertioga há cerca de 30 anos, durante passeio no Parque dos Tupiniquins. O casal contou à reportagem que conhecia o nome de Hans Staden apenas por referências como a antiga clínica da cidade, e que recentemente viu uma matéria nas redes sociais, mas não chegou a ler até o fim. Após conhecerem melhor a história do aventureiro alemão, demonstraram interesse em se aprofundar sobre sua trajetória — um exemplo de como a memória histórica ainda pode ser redescoberta no cotidiano.

UMA HISTÓRIA QUE PEDE VOZ

A reportagem mostra que Hans Staden não foi esquecido pela história — seus relatos seguem estudados e preservados. No entanto, nas ruas, praças e pontos turísticos da própria cidade onde viveu parte de sua trajetória, ele ainda é pouco conhecido.

E talvez esse seja o maior convite que suas memórias nos fazem hoje.

Ali, entre o mar, as muralhas e o vai e vem de visitantes, está um dos primeiros cronistas a descrever o Brasil ao mundo. Um homem que naufragou, sobreviveu, foi capturado, quase morreu — e voltou para contar.

A história continua de pé.

Falta apenas que mais pessoas parem para ouvi-la.

Taysa, ao lado do sobrinho Murilo e da amiga Cibele, durante passeio pelo Parque dos Tupiniquins. Ex-moradora de Bertioga, Taysa contou que conhecia o nome de Hans Staden apenas por referências locais, como a antiga clínica da cidade. Já Cibele, visitante de Guarulhos, afirmou nunca ter ouvido falar do aventureiro alemão. Após a conversa com a reportagem, o grupo demonstrou curiosidade em conhecer mais sobre a história vivida por Staden na região — um retrato do distanciamento entre o cotidiano e a memória histórica local.
Guilherme Henrique e Thais Semíramis, visitantes de São Paulo, registram o momento em frente às representações de Hans Staden e de seu escravo indígena carijó, no Forte São João. Em sua primeira visita a Bertioga, o casal conheceu ali, por meio das placas informativas e da iconografia exposta, a trajetória do aventureiro alemão do século XVI — um dos primeiros europeus a descrever, em detalhes, os povos e as paisagens do Brasil. A cena sintetiza o encontro entre o visitante contemporâneo e a memória histórica, revelando como o patrimônio material ainda cumpre um papel essencial na preservação e difusão do passado. 
De mãos dadas, o casal contempla as estátuas no Parque dos Tupiniquins, em um momento que mistura descoberta e encantamento. Diante das representações de Hans Staden e de seu companheiro indígena carijó, o sentimento é de orgulho por conhecer, ainda que tardiamente, a história de um personagem tão marcante para o Brasil. Um encontro silencioso com o passado que transforma o passeio em memória — e a memória em pertencimento.
Andrew Wellington, turista da capital paulista, posa ao lado do totem na entrada do Parque dos Tupiniquins, acompanhado de seu fiel companheiro de quatro patas. Durante a visita, ele contou à reportagem que conhecia as aventuras de Robinson Crusoe, mas nunca havia ouvido falar de Hans Staden — personagem real que viveu parte de sua história justamente ali, no Forte São João. Um retrato do contraste entre a fama da ficção e o desconhecimento de uma das histórias mais marcantes do Brasil colonial.
Retrato de Hans Staden, aventureiro alemão do século XVI que viveu uma das mais impressionantes experiências registradas no Brasil colonial. Artilheiro no Forte São João, foi capturado pelos tupinambás e sobreviveu por meses entre eles, relatando posteriormente suas vivências na obra “Duas Viagens ao Brasil”, publicada em 1557. A pintura resgata a figura de um dos primeiros cronistas a descrever, com riqueza de detalhes, os povos, os costumes e a paisagem do território brasileiro.
Imponente e silencioso, o Forte São João ergue seus canhões voltados para o Canal de Bertioga, como guardiões de um passado que ajudou a moldar o Brasil. Primeira fortaleza erguida no país, suas muralhas testemunharam batalhas, invasões e a presença de personagens históricos como Hans Staden. Hoje, diante da calmaria das águas, o cenário contrasta com a intensidade de sua história — lembrando que, ali, cada pedra carrega ecos de resistência, sobrevivência e memória.