HANS STADEN: O ROBINSON CRUSOÉ QUE A HISTÓRIA ESQUECEU

ENQUANTO O MUNDO INTEIRO CONHECE O NÁUFRAGO INGLÊS, POUCOS SABEM QUE UM ALEMÃO VIVEU AVENTURAS AINDA MAIS IMPRESSIONANTES AQUI, NO FORTE DE BERTIOGA

HANS STADEN EM REGISTRO HISTÓRICO — Esta ilustração retrata o aventureiro alemão que, há quase 500 anos, naufragou no litoral brasileiro, trabalhou como artilheiro no Forte de São João, em Bertioga, e viveu oito meses prisioneiro dos tupinambás. Seu livro, “Duas Viagens ao Brasil” (1557), é o primeiro relato publicado sobre a nossa terra. Mesmo com tamanha importância, sua história permanece menos conhecida do que a do fictício Robinson Crusoé — e até mesmo entre os moradores de Bertioga.
Crédito: Imagem reproduzida a partir do acervo de Hans Staden – O Aventureiro Esquecido (hansstaden.com). Direitos reservados ao site, que reúne documentação histórica sobre o personagem. 

Por Jornal Edição Extra

Robinson Crusoé é um dos personagens mais famosos do mundo. Livros, revistas em quadrinhos, séries de televisão — sua história atravessou séculos e conquistou gerações.

Mas e se disséssemos que existiu um aventureiro de verdade, cujas peripécias superam as do personagem fictício, e que ele viveu exatamente onde hoje você pisa, em Bertioga?

O nome dele é Hans Staden. E, pasmem, até aqui, na cidade onde parte de sua história aconteceu, ele permanece um ilustre desconhecido.

UM ALEMÃO COM ALMA DE EXPLORADOR

Natural de Homberg, pequena cidade do estado de Hesse, na Alemanha, Hans Staden era um jovem de temperamento aventureiro. Queria ver o mundo, cortar os mares, viver perigos. E foi exatamente isso que encontrou.

Ele esteve duas vezes no Brasil. Foi na segunda, em 1549, que sua vida virou uma epopeia.

Após naufragar nas costas brasileiras, Staden acabou contratado pelos portugueses para trabalhar como artilheiro no Forte de São João, em Bertioga — a primeira fortaleza erguida no Brasil, que na época chamava-se Forte de São Thiago.

Foi dali, enquanto ajudava a proteger a vila, que o destino o lançou em sua maior aventura.

A MURALHA QUE VIU O BRASIL NASCER — Esta é a imponente fachada do Forte São João, o coração histórico de Bertioga e a fortaleza mais antiga do Brasil. Suas origens remontam a 1532, quando uma simples paliçada de madeira foi erguida na Barra de Bertioga para proteger a então nascente vila de São Vicente. Foi sobre essa estrutura rústica que o aventureiro alemão Hans Staden pisou ao trabalhar como artilheiro na região em 1549, uma década antes da construção em alvenaria que vemos hoje. Das suas muralhas, partiu para o cativeiro que o tornaria o primeiro cronista europeu a batizar nossa terra como o “lugar das tainhas”. Testemunha de guerras indígenas e da passagem de personagens como José de Anchieta e Estácio de Sá, o local é hoje um marco vivo. Tombado como patrimônio nacional pelo IPHAN em 1940, o Forte recebe visitantes com entrada gratuita, de terça a domingo, das 9h às 18h. Um monumento de quase 500 anos que teima em nos lembrar de onde tudo começou.
Crédito: Foto do acervo da Prefeitura Municipal de Bertioga.

OITO MESES ENTRE OS TUPINAMBÁS

Em janeiro de 1549, Hans Staden foi capturado pelos índios tupinambás, inimigos ferrenhos dos portugueses e seus aliados tupiniquins.

Durante oito meses, viveu sob a constante ameaça de ser devorado em rituais antropofágicos. Contra todas as probabilidades, sobreviveu usando inteligência, estratégia e — segundo ele próprio relatou — convencendo os indígenas de que era protegido por forças divinas.

Resgatado por um navio francês, retornou à Europa e fez o que nenhum outro havia feito antes: escreveu em primeira pessoa a vida entre os povos originários das Américas.

O LIVRO QUE VIROU DOCUMENTO HISTÓRICO

Em 1557, apenas 57 anos após a descoberta do Brasil, Hans Staden publicou na Alemanha “Duas Viagens ao Brasil”.

Foi o primeiro livro sobre a nossa terra a circular no mundo. Com ilustrações em xilogravura e relatos minuciosos sobre rituais, costumes e a natureza local, a obra se tornou um dos maiores best-sellers da época.

No entanto, ao contrário de Robinson Crusoé, que ganhou adaptações infantis, versões modernizadas e até séries de TV, a narrativa de Staden ficou restrita aos eruditos, preservada em sua forma original quase incompreensível para o leitor comum.

SABOR QUE VEIO DO PASSADO — Milhares de pessoas lotam as barracas da tradicional Festa da Tainha, realizada anualmente em Bertioga entre 27 de junho e 27 de julho. O peixe que hoje é estrela gastronômica já dava nome à cidade há quase 500 anos: foi o aventureiro alemão Hans Staden quem registrou, em seu livro de 1557, que os antigos moradores da região chamavam este lugar de “Lugar de Tainhas”. Enquanto o mundo consagra Robinson Crusoé, poucos sabem que foi aqui, nas praias que abrigam esta festa, que um náufrago real viveu a maior aventura do século XVI — e deixou escrito, em letras que atravessaram oceanos, que Bertioga era, é e sempre será território da tainha. Ao saborear um pedaço desse peixe, o visitante prova também um pedaço da história mais antiga do Brasil.
Crédito: Divulgação Prefeitura de Bertioga

MONTEIRO LOBATO TENTOU SALVAR DO ESQUECIMENTO

O grande escritor Monteiro Lobato percebeu o valor inestimável dessas memórias. Extraiu do original “indigesto” uma versão para crianças e a apresentou por meio de sua personagem Dona Benta, no Sítio do Picapau Amarelo.

A acolhida foi tão grande que uma segunda edição se fez necessária. Lobato chegou a escrever, em tom de prefácio, que as memórias de Staden representam “o melhor documento daquela época quanto aos costumes e mentalidade dos indígenas”.

Mas o tempo passou, e a tentativa de popularização não foi suficiente. Hans Staden continuou sendo desconhecido para muitos brasileiros — e ironicamente, para a própria cidade que guarda a fortaleza onde ele trabalhou.

BERTIOGA: LUGAR DE TAINHAS… OU DE MACACOS?

Aí, como diria o inesquecível Seu Eustáquio, da Escolinha do Professor Raimundo, interpretado por Grande Otelo: “Aí tem suas controvérsias!”

Em seus escritos, Hans Staden registrou que os indígenas e mamelucos que viviam na região chamavam Bertioga de “Lugar de Tainhas” — uma referência direta à abundância do peixe, tão grande que, até algumas décadas atrás, os antigos caiçaras contavam que era possível pegá-las com a mão quando entravam no mar.

Hoje, no entanto, as crianças da cidade aprendem nas escolas que Bertioga tem origem tupi-guarani e significa “Morada dos Macacos”, em referência à abundância de muriquis (ou buriquis) na região durante a colonização.

Qual das versões é a correta? A verdade é que o livro de Staden é o primeiro documento do mundo a mencionar nosso território. Se ele diz que Bertioga significa Lugar de Tainhas, talvez valha a pena escutar o que esse aventureiro alemão — que aprendeu a língua tupi e conviveu com os antigos moradores — tem a nos dizer.

UMA IRONIA QUE A FESTA DA TAINHA ESCANCARA

A ironia histórica é ainda mais evidente quando se olha para o calendário da cidade.

Todos os anos, entre 27 de junho e 27 de julho, Bertioga realiza sua famosa Festa da Tainha — um dos eventos mais aguardados do litoral paulista.

Milhares de pessoas se reúnem para saborear o peixe que, segundo o primeiro cronista europeu a pisar nessas terras, deu nome à nossa cidade.

E mesmo assim, poucos fazem a conexão: Hans Staden, o aventureiro alemão que trabalhou no Forte, foi prisioneiro dos tupinambás, quase devorado e voltou para contar tudo — foi ele quem primeiro escreveu, em letras que cruzaram o oceano, que Bertioga é, sim, o lugar onde a tainha reinava.

UM PATRIMÔNIO À ESPERA DE SER DESCOBERTO

O Forte de São João ainda está de pé. É um dos principais pontos turísticos de Bertioga, visitado por turistas e moradores.

Mas a história de Hans Staden, que poderia ser contada ali, dentro daquelas muralhas que ele ajudou a defender, ainda aguarda seu devido lugar no imaginário local.

Robinson Crusoé é ficção. Hans Staden foi real.

Um navegou em páginas inventadas. O outro naufragou em nossas praias, lutou, sobreviveu e nos legou o primeiro retrato do Brasil — e de Bertioga.

Que neste ano, durante a Festa da Tainha, ao provar um pedaço desse peixe tão especial, o morador e o visitante lembrem: tudo começou com um aventureiro alemão que chamou essa terra de Lugar de Tainhas e, por pouco, não virou parte dela.