HANS STADEN: O ROBINSON CRUSOÉ QUE A HISTÓRIA ESQUECEU
ENQUANTO O MUNDO INTEIRO CONHECE O NÁUFRAGO INGLÊS, POUCOS SABEM QUE UM ALEMÃO VIVEU AVENTURAS AINDA MAIS IMPRESSIONANTES AQUI, NO FORTE DE BERTIOGA

Crédito: Imagem reproduzida a partir do acervo de Hans Staden – O Aventureiro Esquecido (hansstaden.com). Direitos reservados ao site, que reúne documentação histórica sobre o personagem.
Por Jornal Edição Extra
Robinson Crusoé é um dos personagens mais famosos do mundo. Livros, revistas em quadrinhos, séries de televisão — sua história atravessou séculos e conquistou gerações.
Mas e se disséssemos que existiu um aventureiro de verdade, cujas peripécias superam as do personagem fictício, e que ele viveu exatamente onde hoje você pisa, em Bertioga?
O nome dele é Hans Staden. E, pasmem, até aqui, na cidade onde parte de sua história aconteceu, ele permanece um ilustre desconhecido.
UM ALEMÃO COM ALMA DE EXPLORADOR
Natural de Homberg, pequena cidade do estado de Hesse, na Alemanha, Hans Staden era um jovem de temperamento aventureiro. Queria ver o mundo, cortar os mares, viver perigos. E foi exatamente isso que encontrou.
Ele esteve duas vezes no Brasil. Foi na segunda, em 1549, que sua vida virou uma epopeia.
Após naufragar nas costas brasileiras, Staden acabou contratado pelos portugueses para trabalhar como artilheiro no Forte de São João, em Bertioga — a primeira fortaleza erguida no Brasil, que na época chamava-se Forte de São Thiago.
Foi dali, enquanto ajudava a proteger a vila, que o destino o lançou em sua maior aventura.

Crédito: Foto do acervo da Prefeitura Municipal de Bertioga.
OITO MESES ENTRE OS TUPINAMBÁS
Em janeiro de 1549, Hans Staden foi capturado pelos índios tupinambás, inimigos ferrenhos dos portugueses e seus aliados tupiniquins.
Durante oito meses, viveu sob a constante ameaça de ser devorado em rituais antropofágicos. Contra todas as probabilidades, sobreviveu usando inteligência, estratégia e — segundo ele próprio relatou — convencendo os indígenas de que era protegido por forças divinas.
Resgatado por um navio francês, retornou à Europa e fez o que nenhum outro havia feito antes: escreveu em primeira pessoa a vida entre os povos originários das Américas.
O LIVRO QUE VIROU DOCUMENTO HISTÓRICO
Em 1557, apenas 57 anos após a descoberta do Brasil, Hans Staden publicou na Alemanha “Duas Viagens ao Brasil”.
Foi o primeiro livro sobre a nossa terra a circular no mundo. Com ilustrações em xilogravura e relatos minuciosos sobre rituais, costumes e a natureza local, a obra se tornou um dos maiores best-sellers da época.
No entanto, ao contrário de Robinson Crusoé, que ganhou adaptações infantis, versões modernizadas e até séries de TV, a narrativa de Staden ficou restrita aos eruditos, preservada em sua forma original quase incompreensível para o leitor comum.

Crédito: Divulgação Prefeitura de Bertioga
MONTEIRO LOBATO TENTOU SALVAR DO ESQUECIMENTO
O grande escritor Monteiro Lobato percebeu o valor inestimável dessas memórias. Extraiu do original “indigesto” uma versão para crianças e a apresentou por meio de sua personagem Dona Benta, no Sítio do Picapau Amarelo.
A acolhida foi tão grande que uma segunda edição se fez necessária. Lobato chegou a escrever, em tom de prefácio, que as memórias de Staden representam “o melhor documento daquela época quanto aos costumes e mentalidade dos indígenas”.
Mas o tempo passou, e a tentativa de popularização não foi suficiente. Hans Staden continuou sendo desconhecido para muitos brasileiros — e ironicamente, para a própria cidade que guarda a fortaleza onde ele trabalhou.
BERTIOGA: LUGAR DE TAINHAS… OU DE MACACOS?
Aí, como diria o inesquecível Seu Eustáquio, da Escolinha do Professor Raimundo, interpretado por Grande Otelo: “Aí tem suas controvérsias!”
Em seus escritos, Hans Staden registrou que os indígenas e mamelucos que viviam na região chamavam Bertioga de “Lugar de Tainhas” — uma referência direta à abundância do peixe, tão grande que, até algumas décadas atrás, os antigos caiçaras contavam que era possível pegá-las com a mão quando entravam no mar.
Hoje, no entanto, as crianças da cidade aprendem nas escolas que Bertioga tem origem tupi-guarani e significa “Morada dos Macacos”, em referência à abundância de muriquis (ou buriquis) na região durante a colonização.
Qual das versões é a correta? A verdade é que o livro de Staden é o primeiro documento do mundo a mencionar nosso território. Se ele diz que Bertioga significa Lugar de Tainhas, talvez valha a pena escutar o que esse aventureiro alemão — que aprendeu a língua tupi e conviveu com os antigos moradores — tem a nos dizer.
UMA IRONIA QUE A FESTA DA TAINHA ESCANCARA
A ironia histórica é ainda mais evidente quando se olha para o calendário da cidade.
Todos os anos, entre 27 de junho e 27 de julho, Bertioga realiza sua famosa Festa da Tainha — um dos eventos mais aguardados do litoral paulista.
Milhares de pessoas se reúnem para saborear o peixe que, segundo o primeiro cronista europeu a pisar nessas terras, deu nome à nossa cidade.
E mesmo assim, poucos fazem a conexão: Hans Staden, o aventureiro alemão que trabalhou no Forte, foi prisioneiro dos tupinambás, quase devorado e voltou para contar tudo — foi ele quem primeiro escreveu, em letras que cruzaram o oceano, que Bertioga é, sim, o lugar onde a tainha reinava.
UM PATRIMÔNIO À ESPERA DE SER DESCOBERTO
O Forte de São João ainda está de pé. É um dos principais pontos turísticos de Bertioga, visitado por turistas e moradores.
Mas a história de Hans Staden, que poderia ser contada ali, dentro daquelas muralhas que ele ajudou a defender, ainda aguarda seu devido lugar no imaginário local.
Robinson Crusoé é ficção. Hans Staden foi real.
Um navegou em páginas inventadas. O outro naufragou em nossas praias, lutou, sobreviveu e nos legou o primeiro retrato do Brasil — e de Bertioga.
Que neste ano, durante a Festa da Tainha, ao provar um pedaço desse peixe tão especial, o morador e o visitante lembrem: tudo começou com um aventureiro alemão que chamou essa terra de Lugar de Tainhas e, por pouco, não virou parte dela.