ELA FOI DESENGANADA PELOS MÉDICOS, MAS ESCOLHEU VIVER
NO DIA EM QUE COMPLETA 33 ANOS, CAMILA SANTOS ALMEIDA CELEBRA A VIDA AO LADO DA FILHA E TRANSFORMA UMA EXPERIÊNCIA QUE QUASE TERMINOU EM TRAGÉDIA EM UM NOVO PROPÓSITO: AJUDAR A CUIDAR DA SAÚDE DE BERTIOGA

Há histórias que começam com uma mudança de cidade. Outras, com um sonho. A de Camila Santos Almeida começou assim, em 2012, quando ela deixou Simão Dias, em Sergipe, e veio para Bertioga, convidada por um primo que já trabalhava na cidade.
Ela gostou. Conheceu pessoas, construiu sua vida, apaixonou-se pela cidade, casou, tornou-se mãe e fez de Bertioga sua casa.
Mas, em 2024, aos 31 anos, Camila viveria uma experiência que mudaria para sempre sua maneira de enxergar a vida.
Hoje, 11 de agosto, quando completa 33 anos, ela tem motivos de sobra para comemorar. Ao seu lado está a filha, Layla Lhorrane Almeida Gonçalves, de 13 anos, testemunha de uma história que poderia ter terminado de maneira muito diferente.
A fotografia das duas, abraçadas, traduz mais do que um momento de carinho entre mãe e filha. É o retrato de uma mulher que esteve perto da morte e voltou para casa decidida a viver.
E viver intensamente.
UMA NOVA VIDA EM BERTIOGA
Camila chegou a Bertioga em 2012 e logo começou a trabalhar na livraria do Shopping da Riviera de São Lourenço. Em 2013, engravidou de Layla e ficou um período afastada do trabalho para cuidar da filha.
Depois, voltou ao mercado de trabalho. Passou pela loja Hering, onde permaneceu por quase cinco anos, e posteriormente retornou à Riviera, onde trabalha até hoje.
Há cerca de seis anos, Camila também encerrou o casamento. Tornou-se mãe solo e passou a dividir a guarda da filha com o pai, mantendo, segundo ela, uma relação amigável com o ex-marido.
A vida seguia seu curso.
Até que veio o diagnóstico que mudaria sua rotina.
QUANDO A VIDA FICOU POR UM FIO
Há dois anos, depois da separação, Camila descobriu que tinha diabetes.
Começou o tratamento, passou a utilizar insulina e seguia tentando conciliar a doença com o trabalho e a criação da filha.
Mas uma complicação na mão direita fez com que precisasse ser encaminhada ao Hospital Santo Amaro, no Guarujá. Ali, a situação se agravou.
Camila contraiu uma pneumonia hospitalar e permaneceu dois meses entubada.
Foi submetida a uma traqueostomia e, segundo ela, seu quadro piorava a cada dia.
Até que veio a notícia que nenhuma família quer ouvir.
Os médicos disseram à mãe de Camila que não havia mais o que fazer e que os aparelhos seriam desligados.
Foi naquele momento que entrou em cena uma força que, para Camila, foi fundamental para sua sobrevivência: a fé da mãe.
“MINHA MÃE NUNCA DESISTIU DE MIM”
Lucimeire Almeida, conhecida carinhosamente como Meire, é evangélica. E, enquanto os médicos enfrentavam os limites da medicina, ela se agarrava à fé.
Não desistiu.
Não aceitou que aquela fosse a última página da história da filha.
“Minha mãe nunca desistiu de mim. Ela batalhou para eu não morrer e nunca perdeu a fé na minha cura”, conta Camila, emocionada.
Enquanto Meire permanecia ao lado da filha, Camila começou, lentamente, a reagir.
Melhorou.
Depois melhorou novamente.
E continuou melhorando.
A recuperação, porém, estava apenas começando.
“ELA VAI TER QUE APRENDER TUDO DE NOVO”
Depois de meses entre internação, entubação e traqueostomia, Camila voltou para casa diante de um novo desafio.
Precisava reaprender movimentos básicos.
Andar.
Comer.
Recuperar o paladar.
Reconstruir uma rotina.
Segundo ela, um médico explicou à sua mãe que, apesar de sobreviver, Camila teria de reaprender muitas coisas, praticamente como uma criança.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Mas ela aprendeu.
Passados cerca de quatro meses depois de retornar para casa, Camila já estava novamente trabalhando. Tudo era feito aos poucos, respeitando os limites de um corpo que havia passado por uma batalha gigantesca.
Sua mãe, que naquele período precisou interromper os próprios planos — inclusive o casamento que estava prestes a realizar — dedicou cerca de seis meses à recuperação da filha.
Depois, Meire seguiu sua vida. Casou-se e hoje mora em São Paulo.
Camila, entretanto, carrega para sempre a marca daquela presença.
GRATIDÃO EM VEZ DE RANCOR
Uma história como essa poderia ter terminado em revolta.
Camila escolheu outro caminho.
Pessoas próximas chegaram a sugerir que ela processasse o hospital de Bertioga. Ela decidiu não seguir por esse caminho.
Preferiu guardar na memória as pessoas que, segundo ela, fizeram a diferença para que pudesse continuar viva.
Entre elas estão a médica Fabiana Paviane, atual secretária municipal de Saúde, e o médico Jorge, a quem Camila atribui papel fundamental na busca por uma vaga de UTI.
Naquele período, Bertioga ainda não contava com a estrutura de UTI que possui atualmente.
“Se não fosse o Dr. Jorge, eu tinha morrido”, afirma.
A gratidão também se estende à equipe do Hospital Santo Amaro, no Guarujá, onde Camila recebeu tratamento durante os momentos mais críticos.
Entre os profissionais que marcaram sua trajetória está o médico Thiago, que cuidou dela durante a internação.
A história chegou até a Câmara Municipal do Guarujá, onde Camila foi convidada a relatar o que viveu. Na ocasião, o médico que participou de seu atendimento também foi homenageado.
Para Camila, aquele momento representou mais do que uma homenagem.
Foi um chamado.
DO LEITO DE UTI PARA O CONSELHO DE SAÚDE
Depois de sobreviver, Camila decidiu que não queria simplesmente esquecer tudo o que havia acontecido.
Queria transformar a experiência em alguma coisa útil.
Foi assim que se aproximou ainda mais da área da saúde e tornou-se voluntária.
Hoje, integra o Conselho Gestor de Saúde da UBS Central de Bertioga.
Passou a acompanhar de perto os assuntos relacionados à saúde pública do município.
“Tudo que fala da saúde de Bertioga me interessa”, resume.
A mulher que um dia precisou desesperadamente de uma vaga de UTI agora acompanha, participa e procura entender como os serviços de saúde da cidade estão funcionando.
Não como alguém que ouviu falar.
Mas como alguém que esteve do outro lado.
No leito.
Entre a vida e a morte.
“EU SOU UM VERDADEIRO MILAGRE”
Camila não esconde a emoção quando fala sobre o que viveu.
Depois da traqueostomia, ouviu que seria difícil recuperar-se completamente. Ela, porém, saiu daquela experiência sem as sequelas que poderiam ter acompanhado uma recuperação tão delicada.
Voltou a falar.
Voltou a andar.
Voltou a comer.
Voltou ao trabalho.
Voltou para a filha.
E voltou a sonhar.
“Eu sou um verdadeiro milagre”, diz.
Hoje, apesar de ainda enfrentar algumas recaídas relacionadas à diabetes, Camila se considera bem.
E talvez nenhuma frase defina melhor o espírito dessa mulher do que aquela que ela diz com simplicidade:
“Amo a vida.”
O MELHOR PRESENTE DE ANIVERSÁRIO
Hoje, aos 33 anos, Camila trabalha novamente no Shopping da Riviera, com vendas de joias, semijoias de fabricação própria, acessórios e moda praia, na Spazio Solange Zupo.
A rotina voltou.
O trabalho voltou.
A saúde, dentro das possibilidades, voltou.
Mas existe algo que ganhou um significado completamente diferente depois de tudo o que aconteceu: cada aniversário.
Porque Camila sabe que poderia não estar aqui para comemorar os 33 anos.
Poderia não estar ao lado de Layla.
Poderia não estar trabalhando.
Poderia não estar caminhando pelas ruas de Bertioga.
Poderia não estar contando sua história.
Mas está.
E está justamente ao lado da filha que representa uma das maiores razões para continuar.
Layla tinha apenas 11 anos quando a mãe enfrentou os meses mais difíceis de sua vida. Hoje, aos 13, divide com ela o registro que ilustra esta reportagem.
Mãe e filha aparecem lado a lado.
Duas gerações.
Dois olhares.
Uma história.
E, entre elas, um abraço que talvez diga tudo aquilo que as palavras não conseguem explicar.
Camila chegou a Bertioga procurando uma oportunidade.
Encontrou uma cidade para chamar de lar.
Construiu uma família.
Enfrentou uma doença.
Conheceu o limite entre a vida e a morte.
Foi desenganada.
Sobreviveu.
Reaprendeu a viver.
E, quando poderia simplesmente seguir em frente e deixar o passado para trás, escolheu fazer diferente: transformou sua experiência em participação, gratidão e compromisso com a saúde de sua cidade.
Hoje é aniversário de Camila.
E talvez o presente mais precioso não esteja embrulhado em papel.
Está ao lado dela.
Tem 13 anos, chama-se Layla e é filha de uma mulher que, há dois anos, quase partiu.
Mas ficou.
Ficou para viver. Ficou para ser mãe. Ficou para trabalhar. Ficou para ajudar. Ficou para contar sua história.
E, principalmente, ficou para celebrar mais um aniversário.
Parabéns, Camila. Que os seus 33 anos sejam apenas mais um capítulo de uma vida que, contra todas as probabilidades, ganhou uma segunda chance.