SANTISTA: A MEMÓRIA VIVA DE UMA BERTIOGA QUE LUTOU PARA EXISTIR

EM ENCONTRO CASUAL NO CENTRO DA CIDADE, GERÔNIMO LOBATO RELEMBRA HISTÓRIAS DA ÉPOCA EM QUE BERTIOGA NÃO TINHA ÁGUA, LUZ E AINDA SONHAVA COM A EMANCIPAÇÃO

LEGADO DE FAMÍLIA E AMOR POR BERTIOGA
Em frente à histórica residência da família Lobato, Eduardo Olsen Lobato aparece ao lado do pai, Gerônimo de Souza Lobato, o eterno “Santista”, um dos nomes mais importantes da trajetória emancipacionista de Bertioga. Filho de um dos homens que ajudaram a transformar o antigo distrito em município, Eduardo carrega com orgulho o sobrenome de uma família que escreveu capítulos decisivos da história da cidade. Ao lado da esposa Eunice, Gerônimo protagonizou uma das maiores lutas políticas de Bertioga e segue sendo símbolo de memória, coragem e dedicação ao município.

Por Júnior do Extra

Alguns encontros acontecem por acaso, mas carregam o peso da história. Na tarde deste sábado, 25 de abril, em uma conversa breve, porém valiosa, reencontrei um velho amigo: Gerônimo de Souza Lobato, carinhosamente conhecido pelos bertioguenses como “Santista”, uma das figuras mais emblemáticas e respeitadas da história política e social de Bertioga.

Acompanhado do filho, Eduardo Olsen Lobato, Santista esbanjava lucidez, bom humor e uma memória impressionante aos 87 anos de idade. Nascido em Santos, em 1939, ele relembrou com orgulho sua trajetória ao lado da esposa, Eunice Olsen Lobato, de 86 anos, companheira inseparável de vida e de luta. “Ela está bem de saúde e continuamos na luta”, afirmou, com serenidade e o entusiasmo de quem ajudou a escrever capítulos decisivos da história local.

Gerônimo chegou a Bertioga em 1960, em uma época em que o então distrito ainda enfrentava dificuldades básicas. Segundo ele, faltava praticamente tudo. “Não tinha água, não tinha luz”, recordou.

A VOZ FEMININA QUE AJUDOU A ESCREVER A HISTÓRIA DE BERTIOGA
Em um dos momentos mais emocionantes da Sessão Solene em homenagem ao Dia do Emancipacionista, realizada pela Câmara Municipal de Bertioga em maio de 2025, Dona Eunice Olsen Lobato ocupou a tribuna e relembrou, com emoção e firmeza, sua participação em uma das maiores conquistas da cidade. Secretária da comissão pró-emancipação, ela teve papel decisivo no movimento que garantiu a autonomia político-administrativa do município, chegando a viajar a Brasília, discursar no Senado Federal e redigir documentos fundamentais para fortalecer a causa. Ao lado do esposo, Gerônimo “Santista” Lobato, Dona Eunice eternizou seu nome entre os protagonistas que ajudaram a transformar o sonho de independência em realidade. Uma mulher de coragem cuja voz permanece viva na história de Bertioga.

Com seu jeito espontâneo e bem-humorado, ele arrancou risos ao narrar um episódio curioso dos tempos mais difíceis da cidade.

“O Sesc ligou um cano de ferro na Praça Armando Licht e fez um chafariz para o povo ter água, porque não tinha água para beber. Nós bebíamos água da antiga bica do Morro da Senhorinha. Depois, quando a água veio pela Rua João Ramalho, os mais ricos foram fazendo ‘rabichos’ para puxar água para suas casas, e o chafariz secou”, relembrou entre risos. “O povo votou contra a emancipação naquela época e ficou sem água”, brincou.

Por trás do bom humor, existe a voz de quem testemunhou as transformações de Bertioga desde os tempos mais difíceis até sua consolidação como município independente.

ENCONTRO DE PROTAGONISTAS DE UMA CONQUISTA HISTÓRICA
Registrada durante a Sessão Solene em homenagem ao Dia do Emancipacionista, realizada pela Câmara Municipal de Bertioga em 2023, a imagem eterniza três nomes que marcaram profundamente a trajetória política e histórica do município. Ao centro, o saudoso Adiel Pereira (in memoriam), figura respeitada da vida pública local, aparece ao lado do casal Eunice e Gerônimo Lobato, protagonistas fundamentais da luta pela emancipação político-administrativa de Bertioga. Enquanto Gerônimo atuou como vice-presidente da comissão organizadora do movimento, Eunice teve papel decisivo na articulação institucional, inclusive com atuação em Brasília e no Senado Federal. Um registro carregado de simbolismo, memória e gratidão àqueles que ajudaram a transformar o antigo distrito na cidade que hoje orgulha seus moradores. 

Embora não estivesse na cidade durante a primeira tentativa de emancipação, em 1958, Santista acompanhou de perto os movimentos posteriores e tornou-se protagonista de uma das maiores conquistas políticas da história local.

As primeiras tentativas de emancipação começaram ainda em 1956, mas foram rejeitadas pela população. Em 1972, o projeto voltou à pauta, porém não avançou em meio ao período da ditadura militar. Já em 1979, comerciantes, lideranças comunitárias e moradores retomaram o debate sobre a autonomia do então distrito.

Foi nesse contexto que nomes como Pérsio Dias Pinto, Licurgo Mazzoni, José Flávio Romero, Ney Moura Nehme, Pacheco Ferreira de Sá, Osvaldo Biel, Fioravante Maria e o próprio Gerônimo passaram a integrar uma mobilização histórica que mudaria os rumos da cidade.

Ao lado de sua esposa Eunice, Santista teve papel fundamental no Movimento de Autonomia e Emancipação de Bertioga. Ele atuou como vice-presidente da comissão organizadora, enquanto Eunice exerceu uma função igualmente decisiva como secretária do grupo.

Foi ela quem viajou a Brasília, discursou no Senado Federal e redigiu documentos fundamentais para fortalecer juridicamente o movimento.

Com evidente orgulho, Gerônimo resume a importância da companheira em uma frase marcante:

“Ela foi a mão que escreveu a história.”

Após décadas de mobilização, obstáculos políticos e tentativas frustradas — incluindo uma manobra que alterou as divisas do distrito para impedir o plebiscito — a vitória finalmente chegou em 19 de maio de 1991, quando a população disse “sim” à emancipação de Bertioga.

A conquista abriu caminho para a primeira eleição municipal em 1992 e, no ano seguinte, Mauro Orlandini assumiu como o primeiro prefeito da cidade.

Gerônimo também teve participação na política local e chegou a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Bertioga como vereador suplente durante a segunda legislatura.

Em maio de 2025, ele e Eunice foram homenageados durante sessão solene na Câmara Municipal em reconhecimento ao legado deixado ao município.

Ao final da conversa, ficou evidente que Santista não é apenas um homem que presenciou a história de Bertioga — ele ajudou a construí-la.

Em tempos em que muitos desconhecem as dificuldades enfrentadas pelas gerações anteriores, ouvir Gerônimo Lobato é como abrir um livro raro sobre a origem da cidade.

E talvez esse seja o maior legado dos verdadeiros pioneiros: lembrar às novas gerações que Bertioga não nasceu pronta — ela foi sonhada, disputada e construída por pessoas que se recusaram a desistir.