Comportamento: A URGÊNCIA QUE DEVORA A INFORMAÇÃO
JORNALISTA COM 40 ANOS DE ESTRADA REFLETE SOBRE O ABISMO ENTRE A LEITURA PROFUNDA DO IMPRESSO E A SUPERFICIALIDADE INSTANTÂNEA DAS REDES SOCIAIS

Há alguns dias, vivi um momento que me obrigou a parar e refletir sobre o ofício que escolhi e o mundo que estamos ajudando a construir.
Escrevi um texto sobre a entrega de obras de infraestrutura em um bairro da cidade. Um relato simples, direto, que contava uma história com começo, meio e fim. Falava de uma comunidade que esperou décadas por melhorias. Citava nomes de moradores que procuraram o poder público pedindo providências. Trazia informações técnicas, mas também carregava emoção: o fim da poeira, o adeus à lama, a dignidade chegando.
Para mim, era um comentário informativo, curto, objetivo. Para um assessor envolvido na comunicação, era “texto muito longo, prolixo”. Justificativa: “A galera não lê.”
A frase doeu. Não pelo ego ferido, mas pelo diagnóstico assustador que ela carrega. São 61 anos de vida, quatro décadas dedicadas ao jornalismo impresso e mais de trinta à frente de um jornal nesta cidade. Uma existência inteira sustentada pela certeza de que a informação bem contada é a base de tudo.
O LEITOR QUE DESAPARECEU
O assessor não está totalmente errado. E é isso o que mais preocupa.
Nas redes sociais, a informação precisa ser compacta, quase líquida, para escorrer rapidamente pelos dedos de quem rola a tela sem parar. Um texto de 1.200 caracteres já é visto como um “muro”. As pessoas buscam frases de efeito, vídeos de 15 segundos, takes imediatos.
Mas de onde vem essa escassez? Será que realmente “a galera não lê” porque não consegue mais? Ou será que desaprendemos a oferecer leitura em um mundo que nos empurra para a superficialidade?
O impresso me ensinou algo que o digital parece ter esquecido: ler exige um contrato. O leitor do jornal senta, abre as páginas, dedica tempo. Há um ritual. Na rede social, a informação é um ruído entre milhares de outros ruídos. A disputa pela atenção é desleal.
O VALOR DA PROFUNDIDADE
O que o assessor chamou de “prolixo” era, na verdade, o que torna uma informação valiosa: contexto, história, humanidade.
Quando cito moradores que lutaram por melhorias, não estou enchendo linhas. Estou dizendo ao leitor que aquela obra não é apenas concreto. É a resposta a um pedido que nasceu na comunidade. É a prova de que a política pode funcionar quando ouve as pessoas. É uma narrativa que transforma um fato corriqueiro em conquista coletiva.
Isso não é prolixidade. É jornalismo.
Mas o jornalismo como aprendi a fazer está em crise. Não porque as pessoas sejam menos capazes de ler, mas porque o ambiente digital as treinou para não fazê-lo. A leitura em telas é escaneamento, não aprofundamento. Perde-se a nuance, perde-se a história.
DUAS ERAS EM CHOQUE
O que senti foi o choque entre duas eras: a era da informação que busca o leitor e a era do conteúdo que busca o clique.
Na primeira, o valor está na substância. Na segunda, o valor está na velocidade. Na primeira, o leitor é um cidadão. Na segunda, o usuário é um consumidor que precisa ser capturado antes de rolar a tela.
A pergunta que me incomoda: será que a “galera” não lê, ou será que desistimos de oferecer algo à altura da sua inteligência?
Porque acredito que as pessoas ainda são capazes de ler. Capazes de se emocionar com histórias reais. Capazes de valorizar o esforço de quem luta por dignidade.
O que elas não têm é tempo para disputar com mil estímulos a chance de ler um texto que não foi pensado para o ambiente em que chega.
A SAÍDA NÃO É DESISTIR
O erro do assessor não foi sugerir que o texto fosse enxugado. Isso é estratégia. O erro foi a justificativa: “a galera não lê.” Como se o problema estivesse no leitor.
A saída não é desistir da informação de qualidade. É adaptá-la sem empobrecê-la. Usar o texto completo como material de aprofundamento. E oferecer, nas redes, uma versão mais leve, que sirva de porta de entrada para quem quiser saber mais.
Porque a boa informação ainda encontra seu caminho.
O QUE FICA
Aos 61 anos, depois de quatro décadas de jornalismo impresso, ainda acredito na leitura. Acredito que as pessoas se emocionam com uma história bem contada. Acredito que a informação aprofundada forma cidadãos melhores.
Mas também aprendi que é preciso falar a língua do tempo, sem abrir mão do que nos torna essenciais.
O assessor não estava tão errado assim. Mas a forma como ele disse — e o que sua frase revela sobre a visão de muitos profissionais — é um sintoma preocupante de um mal maior.
Que possamos tratar desse mal. Oferecendo informação de qualidade e lutando para que sobre espaço, no meio de tanto ruído, para histórias que merecem ser lidas.
E para leitores que merecem a chance de lê-las.
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Júnior do Extra é jornalista, editor do Jornal Edição Extra há 33 anos, em Bertioga-SP, e observador das transformações da comunicação nas últimas décadas.