LAUDELINA DE CAMPOS MELLO: UMA HEROÍNA DE CAMPINAS QUE MERECIA MAIS DO QUE UM VELÓRIO COM SEU NOME

LÍDER HISTÓRICA DAS DOMÉSTICAS É HOMENAGEADA NO CEMITÉRIO DOS AMARAIS, MAS MULHERES QUESTIONAM: POR QUE TÃO POUCO PARA QUEM FEZ TANTO?

Laudelina durante entrevista à EPTV — Foto: Reprodução☝🏾


Por Verônica Mingorance

No último dia 21, segunda-feira, Campinas prestou uma homenagem à icônica Laudelina de Campos Mello, mulher negra, neta de escravizados e símbolo nacional na luta contra o racismo, o machismo e pela valorização das trabalhadoras domésticas. O Velório do Cemitério Parque Nossa Senhora da Conceição, nos Amarais, onde ela está sepultada, agora leva seu nome: Velório Municipal Laudelina de Campos Mello.

A iniciativa, idealizada pelo pesquisador de cemitérios Thiago de Souza e aprovada pela Câmara Municipal por meio da Lei Nº 16.780, buscou tirar do anonimato a presença de Laudelina no espaço em que repousa. Mas, apesar da justa intenção, a homenagem dividiu opiniões. Algumas moradoras da cidade, emocionadas, procuraram esta jornalista para expressar um sentimento comum: gratidão, sim, mas também um certo desapontamento.

“Laudelina lutou a vida inteira para que mulheres negras fossem vistas, valorizadas e ouvidas. Dar seu nome a um velório, embora simbólico, parece pouco diante de tudo o que ela representou e ainda representa”, disse a cozinheira autônoma Juliana Araújo. “Por que não uma praça, uma avenida, um viaduto, uma escola?”, ela questiona.

Laudelina de Campos Melo no Baile de Pérola Negra (Acervo Fundo Brasil)

A MULHER QUE ENFRENTOU O RACISMO COM ARTE, EDUCAÇÃO E MILITÂNCIA

Laudelina nasceu em 1904, em Poços de Caldas (MG), e desde jovem se destacou. Ainda adolescente, foi eleita presidente de um clube negro em sua cidade natal. Em São Paulo, se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e participou da Frente Negra Brasileira. Em Santos, fundou em 1936 a primeira entidade de empregadas domésticas do país — uma ação pioneira que a ditadura Vargas tentou sufocar.

Quando se mudou para Campinas, nos anos 1950, deparou-se com uma cidade onde o racismo era escancarado: negras não podiam entrar nos clubes, nem circular livremente por ruas centrais como a Barão de Jaguara ou o Largo do Rosário. Laudelina não recuou. Criou bailes, piqueniques e espaços culturais para valorizar a população negra — inclusive a primeira escola de balé e piano para crianças negras no Brasil.

Foi ela quem lançou o Pérola Negra, o primeiro concurso de beleza negra do país, realizado em um teatro municipal. Lutou contra anúncios de emprego racistas nos jornais e, na década de 1980, fundou em Campinas o primeiro sindicato de empregadas domésticas do Brasil, hoje conhecido como Sindtid, com sede na casa onde ela viveu.

Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a se alistar como auxiliar de guerra para combater os ideais nazistas. Sua coragem e visão de mundo ultrapassavam qualquer barreira imposta a uma mulher negra naquela época.

Lápide de Laudelina de Campos Mello no Cemitério dos Amarais em Campinas/SPFoto: Thiago de Souza

UMA HEROÍNA NACIONAL COM HOMENAGENS AINDA MODESTAS

O nome de Laudelina foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2023, por meio da Lei nº 14.635, sancionada pelo presidente Lula. Em 2020, ela também foi homenageada pelo Google, com um Doodle em sua memória.

Em Campinas, sua atuação permanece viva por meio da Casa Laudelina de Campos Mello, espaço mantido por educadoras negras que se autodenominam “Laudelinas”. O grupo luta por equidade, inclusão e representação política — herdeiras legítimas da luta que ela começou há quase um século.

“A homenagem no velório é importante, claro. Mas é simbólica demais para alguém que revolucionou a forma como o Brasil vê as trabalhadoras domésticas e a população negra”, afirma Juliana Araújo. “O que queremos é mais: é visibilidade em vida, em morte e na memória coletiva da cidade”, ela completa.

Foto: Instituto Moreira Salles (IMS)

UM NOME QUE PEDE RUA, PRAÇA, ESCOLA OU MONUMENTO

Em uma cidade onde tantos nomes ocupam placas de rua por feitos políticos duvidosos, o nome de Laudelina deveria estar no coração da cidade, em placas que crianças leem ao ir para a escola, em praças onde famílias negras possam se reunir e se reconhecer em sua história.

Nomear o velório do cemitério onde ela foi enterrada é um gesto simbólico e necessário, mas não pode ser o ponto final. Campinas deve mais. O Brasil deve mais.

Laudelina não é apenas memória: é urgência, é espelho, é exemplo de cidadania e coragem. A cidade que ela tanto incomodou com suas denúncias, agora precisa se incomodar com sua invisibilidade histórica.

Verônica Mingorance é jornalista e colunista social. Atua com foco em temas sociais, culturais e de valorização da história de mulheres negras no Brasil.